sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Da arte de escrever


Caro leitor,

As coisas não estão indo muito bem por aqui. Tenho lido muito. Tenho encontrado-me tantas vezes em frente à máquina de escrever. É um tal de escreve , amassa folha e joga no lixo. E desamassa e recupera algo que se pode aproveitar e tenta outra frase e tenta outra ideia. Escrever não é tão simples assim . Às vezes a gente constróe uma linda obra no pensamento e depois ao transpô-la para o papel acaba piegas, consensual, fútil mesmo.
A campainha não toca meses. Toda manhã a empregada traz meu café. E é assim em todas as refeições. Deixa na porta e depois eu as pego. Alimento-me bem. Bebo bem também. Não abro mão de minhas bebidas aqui em meu quarto. O mundo solitário de escritor tem lá suas vantagens, mas, essa coisa de ser recluso para escrever é uma grande besteira. Aqui comigo estão as imprescindíveis ferramentas de trabalho: máquina de escrever, papel, mãos, olhos e técnicas. Desconfio que as regras gramaticais que tanto domino já estão defasadas. Mas, ainda assim continuo por usá-las, afinal, escritor bom é o que domina de fato as tais regras. Ouvi dizer por ai que existem umas regras realmente indispensáveis a um escritor são elas: isole-se, pratique, exercite. Definitivamente caro leitor é preciso desabafar, esse negócio de seguir as regras não me faz bem, não! Seguir a gramatica acho um tanto quanto desgastante, seguir as regras do exercício, do isolamento, da prática...prática...prática...
Em tese na pratica não tem funcionado não. Eu gostava mesmo era de quando acordava cedo e me banhava, abria a janela do quarto e tinha la sempre um ou dois vizinhos me convidando para um joguinho de baralho na pracinha . Adorava sentar à mesa e tomar aquele café caprichado recheado das reclamações "da preta Alzira" que me dizia que os preços da feira, estão sim seu Genaro pela hora da morte. Havia sempre cedo uma fofoca de algum vizinho que as outras empregadas se encarregavam de contar. Alzira deixe-me ler meu jornal, menina. -"Ai seu Genaro o senhor sempre me chinga mais bem sei que gosta das minhas fofocas, outro dia desamassei um dos seus textos jogados no lixo e lá tinha uma das que te contei". Depois da frenética manhã ao lado de Alzira é que eu ia discutir com aqueles velhos e bons jogadores de baralho. Todos já ranzizas e querendo sempre ter razão ate quando "roubavam no jogo" . Admitir perder, jamais! Assim ríamos, falávamos das fofocas das empregadas e da vida alheia. Paquerávamos mulheres belas que por ali passavam e sorriam. O fato é que usavam de generosidade para com esses velhinhos. Adorava virar as noites na boêmia e encontrar conhecidos e desconhecidos na mais pura vulnerabilidade da embriaguez. Reconheço que muito de minhas escritas foram feitas dessas cenas embriagadas que trazem consigo um misto de comédia barata, tragédia e por que não dizer muito de poesia. Ali encontrava o verdadeiro sentir das coisas. As pessoas é que me trouxeram a escrita pronta. Seus desabafos, suas histórias, suas ranzizes , suas fofocas. Tudo junto transformado em grande literatura. Sinceramente caro leitor eu não sirvo para seguir as tais regras. Não me imponham academicismo.
Batidinhas
na porta!
Ao abri-la vejo meu jantar na mesinha.
-Alzira, Alzira! Retire isso daqui. Prepare a mesa. Vou descer para jantar. Separe meu suéter que hoje eu vou para o bar.
-Mas, seu Genaro.
-Alzira, nem mais, nem menos.
Jantei gostoso ao som das fofocas.
Bebi gostoso ao som dos embriagados.
Voltei para meu quarto e sentei à maquina de escrever. Folhas e mais folhas brancas eram preenchidas. Deitei aliviado na certeza de que amanhã e depois e depois haverá sempre algo, alguém ou alguns a mostrar-me que a ficção , o imaginário , a inspiração são intrínsecos a tudo aquilo que respira.

2 comentários:

Louise Oliveira disse...

Eu escrevo por inspiração. E ela as vezes me dá cada rasteira, tipo quando vc corre atras de galinhas. rs Quem é que as consegue pegar? rs
A música sempre me faz escrever como se estivesse psicografando, nem parece que sou eu que estou lá e que tudo esta vindo da minha própria mente. rs
Mas me isolar como vc citou aí, tb nao funciona parar mim. Com certeza nao conseguiria escrever nada. Realmente a vida é que nos traz as histórias, os contos, a poesia.
Bjs, amigo escritor, adorei o seu blog.
Lu

Marinês disse...

Louise...

muito bacana isso de cada um de nós ter o proprio processo criativo em relação à escrita.
Realmente acredito que essa inspiração me veio por gostar muito de escrever sobre tudo que é vivo e respira."um pouco autobiográfico" ? talvez!

ai que maravilha você ter amado meu blog...vou passar por la para ver o seu...amiga escritora...

bju volte sempre!