quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Remédios


E o senhor sentado ali na praça. Velha praça. Antiga praça.
E ele dizia que ali havia passado a infância e namorado as menininhas e a vida tinha passado.
Com ela envelhecido as arvores que ainda belas, arborizavam e encantavam aquele cenário.
O rosto já não era mais o mesmo, a tanta coisa mudara!
Mudara os olhos: um pouco menos brilhantes.
Mudara o cabelo: quase nada e todo branco.
Mudara a fala, o texto. Mudara tudo, tanto.
Mas não mudara a essência que ele havia conquistado de pequeno.
"Menina vem cá":Vem cá prosear com esse velho.
Sentada ao lado dele, lá estava a ouvir, ouvir mais que falar. De fato ele era bom das prosas.
Contava tanta coisa. Contou que em sua época de criança, brinquedo não se podia comprar e que esse foi o primeiro fracasso que teve de enfrentar. Ser feliz sem brinquedos. A menina, e fui feliz...inventei carros de latas, bolas de meias, historias "recortadas e remontadas" dos jornais velhos do pão.
Pelo menos o pão não faltou é o que disse o meu bom pai até o seu leito de morte: "Faltou tudo Rubião, tudo meu filho, mais o pão, o pão o pai nunca deixou faltar". E assim fui entendendo que o pão era essencial para vida. Não me faltando o alimento é que podia se dizer que tudo caminhava bem, e que a felicidade, sim, ela estava comigo.
Fui a uma igreja assistir a primeira comunhão de uma namoradinha minha e o padre leu um trecho da Biblia e então disse:
"Nem só de pão, vive o homem". Ao sair de lá, aquilo cutucava minha cabeça. "Pera" um pouco menina, o pai disse que se tem o pão que simboliza o alimento e se não existe fome, então, existe tudo.
E o padre disse que o Deus falou: "que nem só de pão vive o homem".
Hoje, filha, hoje sei que essa parábola sim é sim verídica. Não, eu não sou cristão, nem protestante, nem ateu, eu sou de tudo, talvez um pouco cético.
É dificil ser cético ,pois, quando nos vem uma descoberta dessas não é fácil não!! "Dar o braço a torcer" é doloroso! Eu tentei passar foi para o meu único filho que nem só de pão vive o homem, pelo fato de ele precisar de outros alimentos, alimentos esses que nos saciam por meio de um abraço, um sorriso, uma gentileza, um verdadeiro olho no olho...eu disse a ele, minha pequena: que isso é que realmente alimenta um homem, é a troca, o valor do ser humano .
Ele foi logo me dizendo que a vida é moderna e que a mamãe morreu e que as coisas mudaram e que tudo que ele conquistou está é bem lá no progresso, é na Capital. Ele nunca me levou la na Capital menina, mas, meu filho é estudado, rico e tem uma bela casa...ele me mostrou fotos, um dia que veio. Eu disse que gostaria de ir para lá morar com eles, conhecer meus netos e ver sua mulher, que as fotos, as fotos não me trazem o olho no olho e eu quero o olho no olho e batendo os pés duro ele explicou:
-Pai...tá vendo pai... o senhor não evoluí. As fotos estão aqui na camera digital, se o senhor fosse antenado a gente podia se falar pela internet, o senhor podia ver minha familia em tempo real. Mas, o senhor nem sabe o que é internet.O senhor acha que a vida se passa no banco velho da praça.
Num sei mesmo filho, eu sei do duro que dei para não te faltar o pão e em todos os sentidos, mas, acho que não te saciei, acho que a fome ainda continua exacerbada.
Quem te falou essa palavra bonita pai? não lê nada, não escreve nada, não sabe nada de tecnologia e vem dizer exacerbada?
A filho sei de tanta coisa.
Pai vou indo! A vida é corrida! "Tempo é dinheiro" e não dá para eu perder tempo com suas histórias de vida, com sua nostalgia de praça. É pouco, muito pouco para mim !Não me leve a mal , pai!
Ele não voltou mais menina...Faz lá talvez os seus 30 anos . Devo ter bisnetos, pois os netos ja devem estar formados, casados, modernos, devem ter suas proprias familias. Devo ter tanta coisa , mais na verdade eu não tenho é nada. A não ser minha casinha velha, minha praça velha, minhas árvores amigas que me ouvem sem "resmungos"... eu não tenho nada disso e além disso, menina!
Mas, uma coisa eu sei:não me falta o pão!não me falta nada! Eu não tomo remédios filha, sou do tempo antigo mesmo, tempos esses em que se dizia: que se não falta o pão "é que não falta nada" e que se há tantos males, não importa não pequena, "o tempo há de curar".

4 comentários:

Rita Norte disse...

"Nem só de pão vive o homem" - bonita frase, gostei :)
Beijinho

Marinês disse...

Obrigada Rita...

beijinho

e passe mais vezes!

Marie disse...

O tempo cura tudo (: Gostei bastante da sua maneira de escrever

Marinês disse...

Marie..obrigada!!
volte mais vezes...

bju