sexta-feira, 23 de julho de 2010


O vento balançava os seus cabelos.
Balançava também minha imaginação.
Imagino! Imagino ser poeta e criar poesias.
Ela...ela gosta de literatura.
Vento. Páre Vento!
Não a distraia com os cabelos. Deixe que me note. Deixe que me veja!
Então deixe que eu seja ...poeta!
E encontre no vento, no tempo, no cabelo, na menina. Poesia!
Sim. Bastaria-me ser poeta para viver literando ao lado dela.
Bastaria-me viver de poesia.
Mas, eis a questão, eu não sou poeta. Eu sou ator!
Ator dos bons. Atuo bem! Dramatizo bem! E o meu rosto, meu corpo eles falam.
Falam no palco. Gritam em cena.
Mas no palco da vida, ela não me ouve.
Não ouve que a cena que vejo agora é essa do balançar dos cabelos, do confundir pensamentos, do divagar sentimentos, do retratar sua beleza.
Há beleza! Serena, ingênua que às vezes traz consigo certas entrelinhas
Deixe-me dirigir os seus textos. Deixe-me interpretar suas obras.
Deixe-me agora lembrando-me que sofri outrora.
Sofri como sofrem os poetas. Como Bentinho sofria por Capitu, Otelo por Desdêmona, Romeu por Julieta e eu por você.
Não sou poeta mas já tenho um romance pronto.
Tenho um romance pronto! Mas, não basta! Não há fim para essas personagens! Não há desfecho! Não há linearidade!
Há conflitos...apenas conflitos.
Por isso, apenas por isso. Saio de cena.
Saio de cena porque entra no palco a advogada que me defende. Está na plateia aquela que ri da comédia ,tem medo do suspense e chora pela tragédia. O que eu fiz advogada? Qual, qual é a minha culpa? Qual o meu crime? Não, eu não fiz como o Padre Amaro. Minha sentença há de ser leve. Serei quem sabe absolvido?
O tribunal está encerrado. Vinte anos de prisão!
A cela está úmida, não há ventilação. Lembro-me. Nunca, nunca me esqueci nesses quinze anos de reclusão daquele vento.Do balançar dos cabelos. Saí do palco e aqui nesse ambiente é que me reconheci ator. Como soube atuar e incorporar as tantas personagens de uma só vez.
Amanhã. Amanhã saio daqui. Recebi minha liberdade, diminuiram cinco anos. Bom Comportamento!
Saio por aqueles portões e nem sei ao certo o que farei. Talvez um grande... grande espetáculo. Com uma super, super produção. Qual texto? Qual autor?
Eu...minha obra! Minha própria obra. Lapidada a cada dia desses ultimos quinze anos.Uma bela obra, com muita beleza poética. Agora...agora eu sou poeta. E o tema?
"A menina dos meus sonhos"

4 comentários:

Geraldo de Barros disse...

muito bom conhecer o seu espaço, gotei ;)

um abraço,
Geraldo.

Marinês disse...

Fico Feliz Geraldo!

volte sempre!!!

abraço

Geraldo de Barros disse...

agora sim, voltei com mais calma pra dizer que curti muito os textos, ainda não li todos, mas estarei te acompanhando, o que gostaria de dizer é que eles tocaram em partes de mim que ainda não sabia que existiam, pois vc escreve de uma forma diferente da minha, toca em pontos que eu não havia pensado ou sentido e isso é tão bom. o sentimento que encontrei aqui é bem singular,além de serem muito bem escritos, é uma voz bem pessoal. e isso é uma coisa que gosto muito pois além de somar para o meu desenvolvimento, pois me leva para outros caminhos, ainda me inspira muito. foi bom conhecê-la, espero que possamos trocar mais palavras :)

se cuida e fique bem
beijos
G

Marinês disse...

Nossa Geraldo...estou emocionada..
Muito bom saber que a nossa escrita de alguma forma, toca alguém.
E vamos sim trocando,pque as suas escritas são maravilhosas e essa troca só tem a enriquecer.